
Cheguei e não estou sozinha, rodeada de pessoas desconhecidas, dirigi-me lá fora. Sentei-me no confortável sofá verde para duas pessoas, mas ninguém me seguiu para se sentar comigo; olho para cima vejo as folhas das árvores rastejarem pelo telhado de plástico, à minha frente vejo mais árvores, estou numa espécie de varanda gigante; tenho dois cubos de madeira clara perto dos meus joelhos. Fazem-lhes peso o cinzeiro, o tabaco, o caderno, a caneta e o livro que comprei hoje: “Saga de um pensador”. À minha volta estão conversas em mais sofás, puffs, cadeiras: lá dentro a decoração mudou, como muda todos os meses, quadros preenchidos com latas de atum pintadas com cores escuras (no mínimo estranho, não?), para mim simplesmente diferente e gosto assim. Corre uma brisa que me transmite paz e música, bem a música agora está animada, mas calma. Quero um café, onde está o rapaz? Sinto-me sozinha no meio destes seres que parecem não me ver, estou no sofá para duas pessoas, verde-escuro, anda sentar-te comigo.
É demasiado fácil estar contigo. Sinto-me aí. A brisa fez-me dar-te um grande sorriso, e ouves-me a dizer “Ana, é bom estar aqui”. Não consegui ouvir o que disseste a seguir, mas gostei só por teres retribuído o sorriso. Não conheço o teu livro: - posso folhear? Acenas com a cabeça enquanto desfrutas da música e enquanto observas as pessoas, tentas ler-lhes os pensamentos? O rapaz está ali, pedimos dois cafés. Contas-me as tuas aventuras com a ticinhes e a ticha e eu conto-te o quanto perdi por não ter vindo ter contigo mais cedo e as conversas que tive com a tua prima sobre o meu “não arriscar”. Os cafés chegaram, fico com o sabor dele a fazer-me cócegas na boca. Falamos de trivialidades, de coisas importantes, contas-me alguns sonhos, retribuo com o melhor das minhas projecções sobre o meu presente. É real, odeio fazer planos. Perdemos a noção do tempo…
O tempo voou como a brisa que só aqui existe, sorri sim para ti, não consigo ler pensamentos, mas expressões é-me possível: estou a adorar as nossas conversas sobre tudo e nada. Gostaste do resumo do livro, quando acabar empresto-te, sabes porquê? A quarta página pergunta a quem eu ofereço este livro: a mim e aos que pertencem ao meu mundo. Agora ri-me contigo, sabes tão bem roubar um sorriso com tão pouco. Estamos confortáveis e a desfrutar, estou a fumar um cigarro, renegas-me quanto ao meu acto mas continuas a conversa. Estás a olhar a “coruja” da universidade e a comentar o quanto ela é bonita, gostas disto e eu gosto da tua companhia, das tuas palavras, gestos. Damo-nos lindamente, há quanto tempo nos conhecemos? A vida inteira. Foste experimentar o puff e eu soltei uma gargalhada, gostei da atitude extrovertida ao roubares o puff ao outro bloco de cubos. Esqueci-me de tudo o que me atormenta e tu das tuas responsabilidades, das prioridades, das preocupações, da dor de pensar demasiado em tudo, estás tão espontânea…
É bom quando se riem de mim, faz-me sentir útil e estranhamente especial. Estou mesmo contigo. Ainda duvidei, até me teres dado um beliscão. – Essa doeu! (mais um sorriso). É demasiado fácil chegar a ti, pertencer ao teu mundo e pertenceres ao mundo de alguém. É mesmo verdade que hoje falamos em exigências? Ser-se simples não é assim tão difícil, mas ser-se diferente do que não é igual não achei ser possível. Contei-te o quanto tenho aprendido contigo, e tu começaste com aquele teu discurso do “será possível aprenderes alguma coisa comigo?”. – Hoje apetece-me provar-te o valor que tens. Sacas do segundo cigarro, olho-te daquela forma tipo “mais um?”, mas fumo socialmente contigo, admito, é algo que me dá imenso prazer. A conversa já pintou tantos temas, ninguém se perdeu, continuamos juntas, vai tudo mudando ao ritmo/melodia da música. Antes de contares fosse o que fosse, disse-te: Contei-te a piada dos romanos?. – Nãoooo, contaaa. – O que é o HIV? O Hi5 dos romanos. Desatamos a rir, com o habitual aparvalhanço. Temos o “mundo” a olhar-nos…
Só não esqueceste as pessoas que adoras, mandas 1001 mensagens ao mesmo tempo que me dás toda a atenção, és incrível, és tu mesma. Entraste no meu mundo, entrei no teu mundo porque “cada ser humano é um mundo…”.
Risos e sorrisos invadem-nos, os miúdos interromperam-nos os nossos discursos de frases feitas nos segundos do momento que estamos a viver. Cerca de 15 pessoas de meia idade chegaram, aumentamos um pouco o volume do som que nos sai da boca. Peguei no caderno e estou a ler-te excertos do livro, gostas particularmente de alguns. Digo-te “um dia escrevemos um livro juntas”, sorris, fico a olhar-te com mais uma retribuição de sorrisos. Peço mais um café, arregalas os olhos, afirmo-te que gosto muito de café, perguntas: “mais que maionese?”, respondo-te que sim às gargalhadas. Fez-se silêncio, por momentos conversamos pensamentos…
- “Eu gosto de maionese, mas apetece-me compulsivamente fondue de chocolate com fruta.”. Tu, com aquela expressão típica do “oh nãoooo”, respondes: - “e ainda reclamas do meu segundo café e do meu segundo cigarro?”. Perdemo-nos na confusão da noite, apesar de estarmos ali ao lado uma da outra. Gostei do puff e digo-te a sussurrar que o podíamos levar para tua casa. Ficas assustada – “estás louca, é real” – e eu amuada. O barulho das tais cerca de algumas pessoas faz-se de novo ouvir. Olhas para mim e perguntas “quando foi a última vez que te sentiste sozinha?”. Como sou uma pessoa que tem sempre respostas à altura: “um bocadinho antes de te conhecer”. Rimo-nos as duas. As horas passam e nem damos conta. O meu relógio foi estranhamente esquecido, de facto já és uma boa influência. Joguei fora algumas responsabilidades e abracei a oportunidade de estar “aqui” contigo, num mundo que sinto que encaixo tal e qual uma peça de um puzzle. Queres voltar a desmontar tudo. O teu passatempo preferido é construir coisas especiais e roubar sorrisos. E eu, sinto-me uma criança redonda quando estou contigo!
O café/bar está quase vazio, somos das poucas sobreviventes, agora está mais calmo que nunca, temos mais meia hora para nos mantermos aqui, neste sítio onde hoje decidimos estacionar o nosso mundo; será possível termos tema de conversa para quase três horas? Sim, porque as palavras entre nós não se esgotam, como vamos assim acabar a história? Com um simples “até já”. Os funcionários daqui (não gosto da palavra empregados) já estão ofegantes a arrumar, à espera que o seu dia de trabalho acabe e que guiem até suas casas. Olho em torno de tudo e sei uma realidade: “precisamos todos uns dos outros”, respondes: “tenho quem preciso”. Agradou-me a resposta, sabes sempre o que dizer de uma forma simples e bela. Comunicas tão bem. Tens medo de viver aventuras? Surgiu-me esta questão na cabeça, não sei porquê. Porque alguém disse: “os loucos vivem mais aventuras do que os normais”; eu gosto de ter um pingo de loucura e ser louca, gosto de não ser normal, porque “o absurdo é a normalidade”.
Agora brincamos com a vida, para que esta não se zangue connosco!
Fechei o livro, fechamos a nossa conversa, peguei nos novos postais grátis, dirigimo-nos para pagar. Convidei-te para vires comigo para casa e incrivelmente aceitaste sem pestanejar. Seguimos então caminho, percorrendo o Portugal dos Pequenitos, saltando escadas, subindo a rua, entramos no 79. Obrigado por vires comigo.
Obrigado por me deixares ir contigo. E que muitos destes momentos sejam o pano de fundo do nosso 'olhares'
blu'eyes e green'eyes.
Um simples e completo Obrigada *
ResponderEliminargreen'eyes